• Dra Karolina Frauzino

Síndrome pós-trombótica: quando o inchaço não melhora após o tratamento da trombose

Atualizado: Jun 13




Isso é possível?

Sim, isso não só é possível como acontece em um em cada dois dos casos de trombose em veia da perna.

Então se isso está acontecendo com você ou se você tem ou teve trombose, essa informação é sim pra você.


Vou narrar uma situação:

Um belo dia você percebeu que uma das pernas ficou dura, inchada e doendo na região da virilha ou na panturrilha.

Procurou o angiologista que depois de fazer um exame de doppler diagnosticou trombose numa veia da perna.


Você começou a tomar anticoagulante e depois de 1 ou 2 semanas a perna desinchou.


Mais eis que depois de alguns meses, 6 meses, 12 meses o inchaço voltou e, pior, ele não desapareceu mais.

E, pra completar, o angiologista disse que a trombose foi tratada.


E agora? O que aconteceu?


O que é a síndrome pós-trombótica?

Síndrome Pós-trombótica é uma complicação tardia da trombose venosa: quando persistem os sintomas de dor e inchaço na perna comprometida após o tratamento completo do coágulo venoso.

Por que ocorre a síndrome pós-trombótica?

O mecanismo molecular não é totalmente conhecido.


O que se acredita é que a própria trombose causa inflamação e dano às valvas das veias que persiste mesmo após o coágulo ser dissolvido, levando aquela veia a não funcionar adequadamente.


O resultado disso é que o sangue até flui por aquela veia, mas a veia doente não consegue superar a ação da gravidade, que faz força contrária de puxar o sangue pra baixo.

Esse refluxo é semelhante ao que ocorre com as veias safenas nas varizes, porém numa veia profunda - mais importante.


Também pode ocorrer de a própria veia, mesmo com o tratamento adequado, se mantenha obstruída por uma "cicatriz/fibrose" do coágulo.


Tanto o refluxo da veia recanalizada quanto a obstrução da veia não recanalizada atrapalham, e muito, a circulação de retorno e aumentam a pressão de sangue nos tornozelos, o que provoca na ordem inchaço, alterações de pele e até ulceras.


Lembre-se de que estamos falando de veias profundas, responsáveis por levar 90% do sangue que retorna ao coração.

Qual é a chance de eu ter síndrome pós -trombótica?

O risco geral é de cerca de 50%, porém varia em função de qual foi a veia comprometida pela trombose. Quanto mais próxima do coração está a veia, maior é o risco.

Como eu sei se tenho síndrome pós-trombótica?

Na medicina, usamos a palavra síndrome para resumir sinais e sintomas de uma causa. O que significa? Que para eu dizer que tenho síndrome pós-trombótica basta que meu caso se adeque a definição lá no primeiro tópico: "persistência de inchaço e dor nas pernas após tratamento adequado da trombose venosa daquela perna". Isso, sem exame sem nada.

Ainda assim, para completar a investigação, um exame de ecodoppler venoso ajuda a caracterizar melhor o caso por identificar as possíveis da veia: se é caso de refluxo ou obstrução.

Síndrome pós-trombótica tem cura?

Não. Infelizmente essa é uma alteração que fica indefinidamente na veia comprometida. Porém, com as condutas adotadas, os sintomas melhoram significativamente.

O que fazer para evitar a síndrome pós-trombótica após um episódio de trombose?

Trabalhos mostram que o tratamento precoce com os remédios anticoagulantes e uso da meia compressiva têm relação com a prevenção ou, pelo menos, redução da gravidade da síndrome pós-trombótica.

Em quanto tempo após o tratamento da trombose pode surgir essa síndrome pós-trombótica?

Não há um tempo definido. Em geral, após o tempo de tratamento, de 3 a 6 meses. Porém, os sintomas podem surgir após anos da trombose.

Tive trombose e minhas pernas incham mesmo após o tratamento: o que fazer?

Primeiro: procurar um angiologista.

Ao examinar no consultório, o angiologista identificará em que estágio clínico da síndrome pós-trombótica você se encontra (inchaço, alterações de pele, úlcera venosa), o que vai ser crucial para a decisão terapêutica. Aliado a isso, com o auxílio do ecodoppler, que mostrará as alterações das veias, ele conseguirá traçar um plano terapêutico (longo, já digo de cara) para você.

O objetivo do tratamento é melhorar os sintomas e , em alguns casos, apenas reduzi-los. Preciso dizer: quanto mais avançada sua doença se encontra, mais demorado é para chegar ao objetivo.

Infelizmente, muitos pacientes após serem diagnosticados com síndrome pós-trombótica tendem a abandonar o acompanhamento com seu angiologista ao receberem a notícia de que sua condição não tem cura. Porém esses mesmos pacientes acabam voltando após avançarem de estágio clínico, dificultando muito (muito mesmo!) o controle.

Adicional: Um pouco sobre o tratamento

Como falei acima, o tratamento depende (mesmo!) de qual estágio clínico se encontra.

  1. Medicações venotônicas: São usadas em todos os estágios para reduzir sintomas de dor e de inchaço da perna. Dependendo dos sintomas usamos uma, duas ou mais medicações ao mesmo tempo.

  2. Terapia compressiva: em casos mais leves, orientamos medicações e meias compressivas classe 2. Em casos mais avançados, em que há úlceras, lançamos mão de curativos variados, curativo tipo bota de unna, terapia compressiva com bandagens multicamadas, meias compressivas classe 3, etc.

  3. Exercícios físicos: importantíssimo e o mais negligenciado. Exercícios de caminhadas diárias são obrigatórias - se manter em repouso muito tempo está proscrito! Outros exercícios de musculação para estimular e fortalecer a musculatura da panturrilha tem benefício a curto e longo prazo na melhora dos sintomas.

  4. Procedimentos para desobstruir a veia: ainda estão em estudo os benefícios de procedimentos de desobstrução e colocação de stents nas veias que ficaram cronicamente entupidas pela cicatriz da trombose. É uma conduta possível em casos muito sintomáticos, mas nem sempre traz melhora significativa.


E o mais importante: informação!

Quem tem a síndrome pós-trombótica tem que se informar e conhecer o seu problema, pois vai ter que conviver com ele para o resto da vida!

Bibliografia:

- Recanalização após trombose venosa profunda aguda . J. vasc. bras. vol.12 no.4 Porto Alegre Oct./Dec. 2013  Epub Oct 21, 2013


Dra Karolina Frauzino é Médica Cirurgiã Vascular com Título de Especialista em Cirurgia Vascular pela Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular.

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