• Dra Karolina Frauzino

Caso Luciano Szafir: por que não prescrevemos anticoagulante para todos que têm COVID


Fonte da imagem: Revista Quem


Vocês devem estar acompanhando o caso do Ator Luciano Szafir - internado por infecção e complicações do COVID, certo?

Dentre vários temas que podemos tirar desse caso, o que venho falar nesse vídeo é sobre o uso de anticoagulante em quem tem COVID.

Contextualizando:

Luciano foi internado no dia 22 de junho por baixa de oxigênio num caso de COVID.

Durante a internação, realizou exames que detectaram embolia pulmonar. Uma complicação que, segundo estudos, pode acontecer em até 16,5% dos pacientes internados. Com risco menor em pacientes assintomáticos e com sintomas leves do COVID.

Após o diagnóstico, iniciou o tratamento padrão-ouro: uso de anticoagulantes.

No dia 7 de julho, exames detectaram uma hemorragia intra-abdominal, tendo sido submetido à uma cirurgia de emergência, onde identificaram foco de sangramento em um segmento do intestino, que teve que ser retirado na cirurgia.

Graças a Deus, está se recuperando do covid, da embolia pulmonar e da cirurgia.


O que quero tirar desse caso é o exemplo que ilustra a resposta a uma pergunta que sempre me fazem desde que comecei a falar de trombose e covid:


"se quem tem COVID pode ter trombose, por que não se dá logo anticoagulante pra todo mundo que positiva?"

ou

"se a vacina traz risco de trombose, por que não se dá logo anticoagulante pra todo mundo vai tomar?"


Sim, COVID pode ser grave e trazer risco de morte. Trombose pode ser grave e até aumentar o risco de morte nas internações por COVID. Porém anticoagulante também pode trazer complicações; E complicações graves que podem trazer risco de morte, como aconteceu com Luciano Szafir.

No caso do Luciano Szafir, o sangramento que ele teve poderia tê-lo levado a óbito se ele não estivesse sido prontamente operado!


A terapia anticoagulante evoluiu muito de uns anos pra cá e sugiram novos anticoagulantes muito mais seguros, porém assim como toda e qualquer medicação podem trazer algum efeito colateral que pode trazer riscos graves.


E é por esse motivo que os tratamentos médicos seguem um princípio que diz: "primum non noncere" - primeiro não cause dano, ao paciente.

Esse é um princípio ético que diz que nós médicos só podemos indicar um tratamento (medicação ou um procedimento) quando o benefício de se fazer o tratamento foi maior do que o risco de fazê-lo, sabendo que o risco de um tratamento nunca é zero!


E para calcular riscos temos a ciência. Estudos científicos e estudiosos, profissionais de bastidores, que tentam a todo momento quantificar os riscos e os benefícios de cada tratamento e comparar com os riscos de cada doença. Pra vocês terem uma noção, só hoje recebi três artigos científicos sobre anticoagulação no COVID.


Por que não tratamos todos que têm COVID com anticoagulante?

Pois em vários desses estudos científicos a conclusão até o momento é de que: o risco de infecção por COVID assintomática ou pouco sintomática, que é o risco de trombose, é muito menor do que o risco que traz o anticoagulante, que é o risco de ter sangramento.

Já para os pacientes internados por COVID, os estudos têm demonstrado que a balança muda de lado e pesa para o lado dos benefícios em se usar anticoagulante em pacientes com baixo escore para risco de sangramento.


E para quem está tomando anticoagulante indicado por um médico, o risco das complicações já foi calculado dentro das evidências científicas atuais e o paciente foi orientado a todos os cuidados necessários para o uso dessa medicação e para caso haja alguma complicação.


Por aqui sigo acompanhando o trabalho sério da ciência e trazendo conhecimento a quem precisa. E por aí sigam se cuidando e acreditando: isso vai acabar!


Dra Karolina Frauzino é cirurgiã vascular em Brasília-DF, dedicada ao tratamento de doenças venosas. É Membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular.